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Uma Carta Diferente

Certo dia escrevi a seguinte carta:
Estou inconformado com a vida, já não sinto alegria, nem prazer em viver. Penso sempre em você e gostaria de ter certeza do seu amor por mim, pois às vezes me sinto abandonado na solidão. Falo com você, mas você não me diz nada. O que houve? Há algo errado? Foi alguma coisa que eu fiz ou disse? Por favor, me diga, preciso muito saber, você me ama? Se ama me dê uma prova do seu amor por mim”.
Selei a carta e enviei.
No dia seguinte já fiquei de prontidão aguardando ansiosamente o carteiro. Cada dia que se passava parecia que a ansiedade tomava conta de todo meu ser. Nestas minhas esperas diárias me indaguei: “Até que ponto esse amor que sinto é verdadeiro?”. O carteiro sempre entregava as cartas ao entardecer, quando o sol começava a se pôr. Os dias foram passando e sempre fazia a mesma pergunta ao carteiro: “Tem alguma carta pra mim hoje?”. Ele com um sorriso no rosto respondia: “Deixa eu ver... não, não tem carta para você”.
Quanto mais os dias se passavam, mais minha esperança diminuía, comecei a achar que a pessoa não me amava. Decidi descansar meu coração e apenas esperar sem nenhuma expectativa. Fui à cozinha fiz um café e fui lá para a varanda com a xícara na mão para contemplar aquele fim de tarde. Que beleza, quantas cores. Ali sentado na cadeira de palha que tinha na varanda, comecei a lembrar-me como conheci essa pessoa. Lembro-me como se fosse hoje, foi numa tarde que uma amiga minha me deu o imenso prazer de nos apresentar. No começo foi toda aquela empolgação e entusiasmo, queria ficar o tempo todo com aquela pessoa. Não demorou muito e meus pensamentos foram interrompidos quando vi o carteiro se aproximando, fui à sua direção e peguei as cartas, mas não tinha nenhuma para mim. Já esperava por isso, mas não me angustiei e decidi esperar ainda mais.
O tempo foi passando e ficar na varanda bebendo uma boa xícara com café vendo o sol se pôr passou a ser minha terapia e tornou-se parte do meu dia a dia. Diante de tanta beleza que a cada dia era diferente a minha memória era induzida as lembranças que vinham borbulhando em minha mente. E foram nestas lembranças que percebi que o meu amor não estava sendo sincero. Minhas conversas com essa pessoa não era um diálogo e sim um monólogo. Percebi também que sempre recebi daquela pessoa muita atenção e compreensão, mas nunca retribuí. Foi então que me levantei, desci a pequena escada e fui caminhar no jardim. Ver aquelas flores, ouvir o canto dos pássaros e sentir o vento em meu rosto me fez tão bem que perdi a noção do tempo. Cada um desses detalhes me fazia pensar ainda mais naquela pessoa e vi o quanto egoísta eu estava sendo querendo que ela fizesse os meus gostos o tempo todo. Já estava escurecendo, então me dei conta que o carteiro havia passado e tive que fazer o que a um mês não fazia, ir até a caixinha dos correios. Depois que eu enviei minha carta nunca deixei o carteiro colocar as cartas lá, pois a ansiedade não me deixava em paz, então durante todo este mês pegava as cartas nas mãos do carteiro.
Abri a caixinha, vi que tinha bastante cartas, mas nem tive pressa em ver se havia alguma para mim. Então, entrei em casa, coloquei-as em cima da estante e fui tomar banho. Todos da minha família haviam chegado dos seus trabalhos quando peguei as cartas, sentei-me na poltrona e fui ver quem eram os destinatários para entregá-las. Sem esperança alguma fui vendo e separando as cartas para meu pai, minha mãe, irmão... fui surpreendido quando cheguei na última carta, era pra mim. A carta estava com manchas que lembravam manchas de sangue e meio empoeirada, até parecia que fazia tempo que estava ali dentro da caixinha dos correios. Senti que tinha algo dentro dela, abri com muita expectativa, mas eram pregos, até parecia alguma brincadeira de mau gosto. As palavras pareciam que foram escritas com sangue. Quando vi a data que ela foi escrita fiquei surpreso com a demora dos correios, mas para minha surpresa não estava selada. A carta foi escrita no dia seguinte que enviei a minha. A carta dizia o seguinte:
Olá, percebi que estava muito aflito, senti que está triste e confuso por esta razão tive pressa em responder e para não demorar decidi trazer com minhas próprias mãos”.
Quando li estas palavras não acreditei, a carta estava ali o tempo todo e eu esperando receber do carteiro o que já estava lá. A ansiedade não me deixou esperar como todos os dias eu fazia.
Continuando a carta:
Não entendo porque você está assim, afinal, sempre te dei muita atenção. Se não falo é porque você não me deixa falar se queixando de tudo e de todos o tempo todo, mas sempre te escuto pacientemente. Às vezes você age como se eu não existisse e outras vezes como se eu fosse um objeto que você coloca aqui e ali. Não quero ser para você um amuleto e tão pouco um troféu para ser ostentado com soberba. Já que me pediu uma prova de amor, lhe envio esses pregos. Eles transpassaram minhas mãos, porque decidi morrer em seu lugar, mas ressuscitei e fiz tudo isso para você viver comigo por toda eternidade. Desculpa por ter sujado o envelope é porque minhas mãos estão furadas. Estas palavras foram escritas com meu sangue para que você saiba o quanto você é importante para mim, mas me deixe ser importante para você também. Sempre estou contigo, mas você não percebe. Vejo cada lágrima sua, acompanho todos seus passos, mas você só me procura quando precisa que eu faça algo para você. Me trata como se eu fosse o gênio da lâmpada mágica querendo que eu satisfaça o tempo todo seus desejos. Me entenda, faço sempre o que é melhor para você, porque te amo muito e sempre te amarei.
Assinado: Jesus Cristo”.
Quantas vezes procuramos a mensagem de Jesus em tantos lugares, procuramos pessoas e esquecemos de ver a caixinha dos correios que é a Escritura e nosso coração. Ele fala conosco sem precisar de terceiros basta nos dispormos a ouvi-lo. Ele nos ama e deseja ter um relacionamento íntimo e verdadeiro com cada um de nós. Ele não está longe de você! Ele está dentro de você, portanto, volte-se para dentro de si e escute-o. Leia a Boa Notícia dEle para toda humanidade e tenha sempre um diálogo com Ele deixando-o falar como Ele deseja.

NEle,
Um discípulo no Caminho!

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